A perseguição aos vermelhos

A Perseguição aos Vermelhos

“A perseguição aos vermelhos” é uma das quatro histórias em quadrinhos que compõem a publicação “O obscuro fichário dos artistas mundanos”, novela gráfica inspirada em um projeto de pesquisa homônimo, cujos resultados podem ser conhecidos através do site obscurofichario.com.br. Criada com o incentivo do Funcultura e lançada pela Companhia Editora de Pernambuco (CEPE), a publicação tem roteiro assinado por Clarice Hoffmann e Abel Alencar e desenhos de quatro artistas visuais. Aqui você encontra a audiodescrição de todas as páginas e quadros de “A perseguição aos vermelhos”, cujas ilustrações são de autoria de Greg.

Acessibilidade: COM Acessibilidade Comunicacional

Roteiro de audiodescrição: Liliana Tavares

Consultoria de audiodescrição: Michele Alheiros

Nota Introdutória

As ilustrações da HQ “A perseguição aos vermelhos” foram, inicialmente, concebidas em um minilivro de papel composto por esboços simples, desenhados pcom o intuito de guiar a criação de cada uma das páginas da história. Em seguida, fazendo uso de uma mesa digitalizadora e de uma caneta para nela desenhar, um novo tratamento foi dado a esses esboços. O mesmo ocorreu com grande parte dos desenhos da HQ, trabalhados pelo artista a partir do escaneamento de esboços traçados a lápis em papel. Já a colorização das páginas da HQ foi totalmente feita no computador. Mas, a forma de pintar e desenhar nesses equipamentos digitais é muito próxima a empregada no papel. Tudo é feito à mão. Com a mesma poesia com a qual é usado um lápis ou um pincel, a caneta para desenhar e pintar na tela da mesa digitalizadora pode ser manuseada com velocidades distintas, diversos níveis de pressão e com diferentes tipos de “pincéis”. A vantagem de seu uso consiste na facilidade de alterar, apagar ou trocar rapidamente os desenhos e as suas cores. O resultado é tão fidedigno ao movimento gestual do artista, que fica difícil de identificar quais ilustrações foram feitas no papel e quais foram feitas no computador. As imagens das páginas da HQ “A perseguição aos vermelhos” estão disponibilizadas acima da audiodescrição relativa a cada uma delas.

Páginas 01 e 02. Uma foto em preto e branco de um prédio térreo circular ladeado por mastros com bandeiras. A fachada frontal possui quatro portas e acima delas uma pequena janela redonda. No alto da fachada, escrito em preto e em letras maiúsculas, ANTI-COMUNISMO. O rodapé está manchado de vermelho e sobre a mancha: “A Perseguição aos Vermelhos”. À esquerda três fotos 3X4 de um homem de terno. Na primeira ele está de perfil, na outra de frente e na terceira de frente com chapéu. Essa última foto está sobre uma mulher, vista de costas, do ombro para cima. Ela é magra tem cabelo vermelho, reto na altura da nuca. Olha séria para a esquerda por sobre o ombro. Abaixo, dentro de uma caneca, lápis, canetas e uma lupa. À direita, uma máquina de escrever antiga. Nela, um papel em branco com pingos vermelhos. Ao redor, algumas bolas de papel amassado. O fundo é vermelho sangue com marca d’água de documentos e digitais.  No canto superior esquerdo, o rosto de um militar de cap.

Página 03. Sobre fundo com várias texturas de vermelho escuro, silhueta lateral do Pão de Açúcar, ao pé do morro, à direita, visto de longe, um prédio térreo alongado, com três abóbodas, duas nas laterais e uma no centro. Em primeiro plano, ondas do mar agitadas e abaixo seis quadrinhos, as falas estão em balões. No topo, escrito em branco, com fonte de máquina antiga, “Madrugada de 27 de novembro de 1935 | Praia Vermelha, Rio de Janeiro”. Sobre o morro, também em branco “Ratatata, Ratatata” as letras se sobrepõem e diminuem de “tamanho, Ratatata, Ratatata”. À esquerda da base do morro é sobreposta pelos versos em vermelho claro. “Praia maravilhosa / Cheia de balas mil / Vermelha e Radiosa / Redentora do Brasil.”

No primeiro quadrinho, três homens fardados do exército. O do meio está de perfil para à esquerda, segura um rifle apontado para cima, diz: “Sargento Ernesto,o comando da 1º. Companhia está em suas mãos. Ponha seus soldados em forma …” Um balão é estendido para outro quadrinho “… e desça para lutar”. Soldados de costas marcham para à direita com um rifle apontado para cima. No terceiro quadrinho, um homem de cap e bigode fino diz: “Marchem para o combate!  Não temos medo do terror branco fascista”. No próximo quadrinho, o homem do meio diz para o de cap: “Jacques, você vem comigo. Vamos invadir o gabinete do comando”. No quadrinho seguinte, visto de cima, os três homens apontam para frente. Diante deles, vê-se uma mesa, três mãos e quatro armas sobre um birô.O homem do rifle diz: Armas à mesa, senhores”. No último quadrinho dois homens fardados, com os braços levantados e o sargento Jacques de costas apontando uma arma para eles”.Em dois balões que se estendem do anterior: “Sargento, conduza os prisioneiros para o Cassino dos Oficiais”. Jacques responde: “Sim senhor, Tenente!”

Página 04. Ainda sobre fundo com várias texturas de vermelho escuro, seis quadrinhos grandes, três em cima e três embaixo. Acima deles, em branco, Ratatata, Ratatata, as letras, maiores à esquerda, se sobrepõem e diminuem ao longo da largura da página. Dois soldados, vistos da cintura para cima. Um de perfil atira. O outro está de costas. No primeiro quadrinho à esquerda, dois soldados de perfil atiram, no alto, em amarelo, “Viva o camarada Luís!!!”. No quadrinho seguinte, três soldados correm em nossa direção enquanto seguram rifles. No alto, em amarelo, “Viva o Governo Popular Revolucionário!!!”. No próximo quadrinho, um soldado olha para o alto. No quarto quadrinho, o céu repleto de silhueta de aviões de guerra. No outro quadrinho, alguns aviões de uma hélice voam. Estão de perfil para à esquerda. No sexto quadrinho, explosão da abóboda esquerda. Abaixo dos quadrinhos, o prédio alongado está com a abóboda esquerda detonada de onde sai um nevoeiro de fumaça.

Página 05. Quatro quadrinhos grandes, um retangular fino, na largura da página, abaixo dois dividem a página e abaixo, outro retangular largo. Sobre fundo cinza, uma mulher de cabelos avermelhados e retos na altura da nuca, toca piano para uma plateia. Está de tomara que caia. Ela é iluminada por luz verde que deixa o sombreado azul. Todas as letras são brancas e de forma.

No topo do primeiro quadrinho, em letras brancas de máquina antiga, “12 de dezembro de 1946| Parque Treze de Maio, Recife”. Vistos do alto, o teclado de um piano, as duas mãos dela sobre as teclas, à direita iluminada de verde, e o topo da cabeça dela bem no centro, sobrepõe algumas teclas. No canto inferior esquerdo, em branco, “Presenciamos hoje na X Festa da Mocidade uma exibição arrebatadora!!!”

No quadrinho de baixo, ela de perfil, costas nuas, olhos fechados, nariz afilado, rosto iluminado de verde com sombreado azul nas pálpebras, narinas, lábios, abaixo do queixo.

No quadrinho à direita, em primeiro plano, rosto dela voltado para à esquerda e iluminado de verde, e ao fundo, os rostos da plateia na penumbra azul. No canto superior esquerdo, em branco, , “Aurora Aguiar é uma artista de força indomável”.

No último quadrinho, ela toca, sentada diante do piano. Sentada com o corpo virado para à esquerda, é vista do nariz até a cintura. As duas mãos estão iluminadas de verde e o piano preto reflete a penumbra azul. No canto superior direito, “Desde o momento em que os dedos desta magnífica pianista entraram em contato com o teclado, toda a assistência ficou presa ao encanto sugestivo de uma execução magistral. Que essa alma essencialmente musical encontre sempre um corpo resistente!”

No rodapé, sobre fundo preto, uma clave de Sol e “Caixinha de Música Quebrada, de Heitor Villa-Lobos”.

Página 06. Sobre fundo marrom, seis quadrinhos, dois a dois em três linhas, os balões são brancos e as letras pretas. No canto superior esquerdo, Aurora Aguiar está de costas com o corpo encoberto por uma porta aberta. Vê-se os cabelos vermelhos, o ombro esquerdo nu e o braço esquerdo. No balão sobre a porta, “Belo espetáculo!”. No quadrinho do lado, parte do rosto dela, virado para direita, de onde vem um homem muito forte, de terno e gravata. “Belo espetáculo…madame”. No quadrinho abaixo, detalhe da boca de Aurora com batom vermelho escuro, “Farás uma apresentação também? És artista, senhor…”. No quadrinho da direita, o rosto largo do homem negro com sobrancelhas grossas e bigode fino. Em três balões, “Jacques…Jacques Ferreira. Vou lutar aqui amanhã, madame. Vivo lutando. Aliás, estamos todos lutando, em diversos ringues. Sua primeira vez no Recife?”. No quadrinho de baixo, parte do rosto dela, do nariz até o queixo, e a mão direita próxima à boca, segura uma esponja demaquilante. No balão, “Não. Já apresentei recitais de sucesso no Teatro de Santa Isabel e, como tenho bons amigos na cidade, cheguei dias atrás”. No último quadrinho, a silhueta dos dois, frente a frente, na penumbra azul. Em dois balões, “Eu sei, madame. Talvez a senhora não tenha me visto, mas nos encontramos na semana passada em um lugar, digamos, desagradável”. Ela pergunta: “Na semana passada?”.  

Página 07. Seis quadrinhos, três no topo e três na base. Entre eles uma imagem ladeada, em cima e embaixo por uma caixa de texto bege com um rosto de um homem bigodudo e de gravata borboleta vermelha. No primeiro quadrinho, penumbra cinza da fachada do prédio do Clube Náutico Capibaribe cercado por uma multidão.

No alto, em letras brancas de máquina antiga, “5 de dezembro de 1946 | Clube Náutico Capibaribe | Aflitos, Recife”. No quadrinho ao lado, um homem de paletó e chapéu, com um cigarro na boca que solta muita fumaça, apresenta o distintivo polícia para um outro que se sobressalta. Por trás do policial, um homem de traços grosseiros e bigodudo, está com a mão dentro do paletó. No próximo quadrinho, o policial de costas e perfil do rosto do homem grosseiro em primeiro plano. Logo abaixo, na caixa de texto com o rosto do homem bigodudo e de gravata borboleta vermelha: “Apresenta-se auspicioso o encontro de hoje no Clube Náutico Capibaribe. O público comparece em massa para ver um dos mais concorridos e sensacionais espetáculos de violência e brutalidade, oferecendo rendas elevadas para seus organizadores e para os famosos profissionais, que participam da primeira temporada internacional de catch-as-catch-can, na sede dos Aflitos.”

Abaixo, o policial, visto do peito para cima, está de perfil e com dedo em riste, virado para o homem grosseiro que, visto de frente, sustenta um revólver por baixo do paletó. Ele diz: “Vamos enquadrar logo esse agitador, 254, e fazer o serviço.” O policial retruca: “Alto lá, homem! Nunca pus os pés no Náutico. Vamos assistir à luta e depois pegamos o elemento”.

Abaixo, na caixa de texto: “Senhores!!!! Mais uma vez, oferecemos um embate de gladiadores!!! Como nas touradas da velha Espanha, tal qual deuses no mediterrâneo, aqui se apresentam homens dispostos a tudo!! Penetram no ringue os contentores da última luta de “catch” desta temporada: Jacques Ferreira, campeão carioca, e o russo Carlo Mesnick”.

Abaixo, no quadrinho do centro, em meio a uma plateia na penumbra, o homem grosseiro com o dedo no gatilho do revólver e o policial levantando o chapéu. Nos quadrinhos dos lados, perfil do rosto dos pugilistas que se encaram. À esquerda, Jacques Ferreira, à direita, Carlo Mesnick, tem o cabelo raspado acima da orelha e na nuca.

Página 08. Cinco quadrinho sob uma luz azulada com sombreado vermelho. Dois largos, um no alto e outro embaixo. No centro, dois quadrinhos maiores e um fino entre eles. Cenas da luta de box.

No primeiro, Menisck à esquerda diante de Jacques. Ambos sem camisa, de luva de box, vistos do ombro para cima. No canto superior direito, a caixa de texto com o rosto do homem bigodudo e de gravata borboleta vermelha: “Mesnick, credenciado com a vitória conquistada anteontem sobre o francês Ulsemer e com uma vantagem extraordinária de 20 quilos sobre o seu adversário, é apontado como o favorito da luta!”.

 Abaixo, no quadrinho à esquerda, Menisck de costas, dá um golpe no rosto de Jacques que aparece duplicado. No quadrinho do meio, Jacques curvado, com as mãos no chão e o rosto entre elas. Menisk de pé o observa. Na caixa de texto o homem de gravata borboleta está respingado de sangue, diz: “Mesnick lança-se contra Jacques com uma fúria e violência impressionantes e, nos primeiros 30 segundos da luta aplica uma joelhada à altura do estomago do adversário prostrando-o quase K.O.”. No quadrinho seguinte, a caixa de texto: “Embora desgovernado, Jacques levanta-se!” Os dois, vistos de baixo, frente a frente, ao fundo, duas cordas do ring.

No quadrinho inferior, Jacques com o braço esticado e a outra mão recolhida sobre o peito, golpeia Menisck abaixo do queixo. Menisck, com o braço sobre o braço de Jacques e o outro contraído, está com a cabeça inclinada para trás. Alguns borrões próximos aos braços revelam o movimento. Na caixa de texto o homem de gravata borboleta, mais ensanguentado e de boca aberta, diz: “O campeão carioca reage e devolve a gentileza sob a forma de um direto reto como uma vara! Mesnick é atingido!!”

Páginas 09 e 10 são contínuas. No topo, seis quadrinhos retratando a luta. Eles estão lado a lado, três em cada página. Abaixo, no ring, o juiz levanta o braço do vencedor. Ao redor do ring, o público está ensandecido. O policial e o homem grosseiro, andam sorrateiramente.

No primeiro quadrinho, um punho cerrado com luva de box rente o rosto de Jacques que está respingado de sangue. Ele está com a boca aberta e a língua para fora. Em letras brancas: “Jacques ainda está cambaleando…!”. No quadrinho seguinte, os espectadores vibram. Estão com os rostos respingados de sangue. No balão, um homem diz: “Que exibição violenta, quanto sangue!”. No quadrinho ao lado, vistos dos ombros para cima, os dois boxeadores lutam. Menisck de costas e Jacques de frente para nós. No topo, em branco, “…mas Menisck aplica novos e terríveis golpes.”. No quarto quadrinho, na página ao lado, em primeiro plano, a silhueta de Jacques inclinado para trás, em queda. Diante dele, Menisck com o braço esquerdo atravessado na frente do corpo apontando para baixo. Ao fundo, as cordas do ring. No topo, em branco: “Senhores, há sangue nessa temporada de “catch”!!!!”. No quinto quadrinho, os policiais em meio à multidão. Dois balões: “Dizem que são todos vermelhos”. “Eu tenho certeza”. No sexto quadrinho, Jacques caído no chão, Menisck de pé, com os braços armados ao lado do corpo, e ao fundo o juiz.

À esquerda, em uma caixa de texto o homem de gravata borboleta, “E o favoritismo foi confirmado com a vitória relâmpago do russo, conquistada em apenas quatro minutos de luta. O juiz Maromba, agindo dentro do regulamento, proclama Mesnick o vencedor da prova e anuncia seu triunfo na presente temporada de catch-as-catch-can”.

Sobre fundo vermelho, Maromba ergue o braço do musculoso Menisck. Acima das cabeças do público, frame de rostos. Um homem negro esbraveja, “Cabra safado!!”; noutro frame, um homem magro irritado, “Pega esse russo!!”. Silhueta de cadeiras no ar. Em um frame, uma mulher apavorada grita, “Basta!! Basta!!”, em outro um homem de olhos fechados, boca aberta e punho cerrado no alto da cabeça, e no último frame, um homem com as duas mãos abaixo das bochechas, “Céus, perdi minha feira!!”.

Na base, em primeiro plano, em preto e branco, o policial com o cigarro na boca e com o polegar em riste, é seguido pelo homem grosseiro que tem parte do revólver para fora do paletó. À direita deles, a caixa de texto com detalhe do rosto do homem de gravata borboleta do nariz para baixo: “Alguns torcedores exaltados tentam agredir o campeão russo. Cadeiras voam em direção ao ringue. Senhores, Mesnick passou a ser odiado pela assistência que tem comparecido as noitadas de catch por atuar como um brutamontes, de maneira violenta e sem qualquer prova de lealdade. Mas, tratando-se de uma luta em que vale tudo, não se pode exigir que se deixe de ser violento.”

Página 11. Nove quadrinhos dispostos em três linhas de três. Em todos eles os ambientes são escurecidos, em penumbra azulada. Jacques representado por silhueta branca. No primeiro quadrinho, Jacques está sentado em um banco diante de um homem, que também tem o corpo branco opaco. O homem está de pé, com uma toalha no ombro e estende a mão em direção a Jacques. Jacques está um pouco curvo, com o cotovelo esquerdo apoiado no joelho e a mão direita na cabeça. No quadrinho seguinte, o rosto do homem grosseiro. Tem o rosto redondo, as sobrancelhas e o bigode fartos, o nariz largo, e a barba por fazer. Olha para frente. No balão, “Jacques Ferreira?”

No terceiro quadrinho, Jacques ainda sentado diante do homem. No quarto quadrinho, o policial visto do ombro para cima, de chapéu, com o cigarro na boca, a boca entreaberta e em primeiro plano, a mão um pouco fechada com o polegar e o dedo médio em evidência. No balão, o policial diz: “Queira nos acompanhar.”. No próximo quadrinho, todos estão de costas. O homem grosseiro e o policial são uma silhueta preta e a frente dele, Jacques. O policial está com a mão espalmada nas costas de Jacques. No sexto quadrinho, os três estão de pé, ao lado do carro, perto do portão de um casarão de onde vem Aurora Aguiar, ela caminha séria. O homem grosseiro olha para Jacques. No outro quadrinho, perfil de Aurora que passa séria, olha para frente. Usa blazer, saia azul e blusa branca. No oitavo quadrinho, os três chegam numa sala escura, no primeiro plano, um homem de costas visto do ombro até parte da cabeça, usa um paletó marrom.  Da porta, o policial diz, “Comissário Barros, nosso visitante…” O comissário responde, “Ramos, prepare uma ficha para o nosso amigo e traz o prontuário dele.”. No último quadrinho, Ramos, o policial, sorri. Em primeiro plano, à esquerda, a mão do comissário com um cigarro entre os dedos e um anel de ouro com pedra vermelha no dedo médio direito.

Página 12. Nove quadrinhos em três linhas de três sendo os três primeiros na penumbra azul e os outros, uma imagem dividida em seis quadrinhos. Os balões são cinzas. No primeiro quadrinho, Jacques está com o rosto virado para à direita, sentado diante de um birô que tem sobre ele uma caneca com lápis, canetas e uma lupa; cadernos de capa dura; uma máquina de escrever antiga; na frente dela, um cinzeiro de onde sai fumaça na vertical; e alguns papeis. À direita, um balão que vaza do quadrinho seguinte, Ramos diz: “Aqui está comissário. O prontuário…”. No quadrinho seguinte, em outro balão, Ramos continua: “do nosso “grande pugilista, do nosso campeão!!!”. Ramos coloca uma pasta sobre o birô. Ao fundo, a silhueta de Jacques. No terceiro quadrinho, a pasta marrom em primeiro plano, a fumaça do cinzeiro ao lado e ao fundo a silhueta de Jacques. Um balão, “Ora, ora…”  Nos seis quadrinhos abaixo, Jacques, colorido, visto do ombro para cima está com o olho roxo e inchado, e tem um ferimento no lábio inferior. À esquerda, a caneca, à direita, a máquina de escrever e três balões conectados, “Veja o que temos aqui: um vermelho. Ex-sargento do 3º Regimento de Infantaria…”. Abaixo, um papel datilografado, no topo, “Comunista”, logo abaixo, “Prontuário”, “Nome, Jacques Ferreira” e logo abaixo uma tabela com duas colunas, uma com datas e outra com anotações. No canto direito, a mão direita do comissário sobre o papel, os dedos com pelos e o anel de ouro com uma pedra vermelha no dedo médio.

Página 13. Desenhos nas tonalidades de laranja, lilás e branco. Três desenhos são separados por linhas de arame farpado na horizontal.   No topo, em letras brancas de máquina antiga, “06 de maio de 1940 | Presídio de Fernando de Noronha”. Abaixo, um morro lilás com um pico e ao lado, escrito em preto e em letras cursivas, “Desembarcamos na praia de Santo Antônio. À nossa espera estavam velhos camaradas! Tomei meu primeiro banho de mar em Fernando de Noronha e de lá fomos para o alojamento central dos presos políticos aliancistas. Na ilha, em outro alojamento, ficavam os integralistas.” A beira mar, silhueta de alguns homens e soldados, Jacques, emagrecido, ao lado de um soldado, caminham em nossa direção. Abaixo, uma linha de arame farpado na horizontal. À esquerda, o rosto de Jacques, sério. Ao lado, em letras cursivas, “Quando chegamos, o estado de saúde de alguns companheiros era precário, mas quase todos começaram a melhorar sensivelmente – não só devido ao sol, ao ar puro e aos banhos de mar, como pelo trabalho físico. O problema em Noronha era a água, sempre de péssima qualidade. Tínhamos um coletivo bem estruturado e dividido em turmas.”.

Uma linha de arame farpado, abaixo, à esquerda, dois homens aram a terra. Eles estão sem camisa e com calças listradas. À direita, mais homens com roupas listradas na vertical. Alguns carregam banana, outros, peixes.

Mais uma linha de arame farpado e abaixo, em letras cursivas, “Eu e outros camaradas trabalhávamos oito horas por dia na horta. Eram dois hectares cheios de verduras, que distribuíamos para todas as famílias da ilha, para o hospital e, até mesmo, para o destacamento policial.”.

Página 14. Três desenhos separados por linhas de arame farpado. No alto, dois homens lutam em um ring de estacas e cordas. Outros homens e dois guardas assistem. Ao fundo, telhados de piaçava, e ao longe árvores. À esquerda, em letras cursivas, “Na parte da tarde, eu colaborava voluntariamente com a organização das atividades esportivas, artísticas e culturais”. Uma linha de arame farpado na horizontal e abaixo, cinco homens de roupa listrada, sorridentes, tocam instrumentos musicais, trompete, violão, surdo e pandeiros. Em letras cursivas, “Entre os camaradas, existiam bons músicos. Formamos um conjunto e o batizamos de “Os Diabos de Fernando”. E ladeado pela clave de sol,

“Quem trabalha há de ser o mais forte/ No calor deste céu sempre azul/ Das douradas caatingas do Norte/ Às ridentes cochilas do Sul/ Nós faremos o “Sigma” em pedaços/ Não queremos emblema tão vil/ A serviço dos grandes ricaços/ Contra os pobres de todo o Brasil”

Outra linha de arame farpado na horizontal. Abaixo, em letras cursivas, “Criamos também um clube esportivo, que demos o nome de GAB, Grêmio Atlético Brasil, e construímos uma sede bem modesta. Além de palestras e conferências sobre a situação do mundo e do Brasil, nas datas nacionais mais importantes apresentávamos alguma peça artística. Também organizávamos festejos juninos e natalinos”.  À direita, vistos do ombro para cima, três homens, entre eles Jacques. Nos balões, o homem, à esquerda, diz: Éramos uma grande família.” O outro homem, fala: É preciso não ter medo, é preciso ter coragem de dizer. Jacques diz: “Tínhamos a terra, o pão, mas nos faltava a liberdade!”

Página 15. Cinco quadrinhos em quatro linhas. Três compridos, um abaixo do outro e dois na última linha. No primeiro, o comissário, visto do ombro até a cintura, segura o prontuário diante do rosto de Jacques. Entre eles, o balão, do comissário que se desdobra em todos os outros ao longo da página: “Ao longo dos últimos dez anos, atuamos pelo aniquilamento definitivo das organizações vermelhas, que tentavam ampliar seu raio de ação por meio da proliferação de ideias subversivas entre as classes laboriosas…”. Outro balão sobre a base desse quadrinho e no topo do próximo, “…Nos empenhamos em varrer do mapa os bandidos vermelhos com o extermínio das células comunistas…”. No quadrinho, Jacques sem camisa e com luva de box, golpeia a foto de Getúlio Vargas grudada no saco de pancada vermelho, ela está rasgada próximo a boca. No balão, sobre esse e o quadrinho seguinte “…de modo, que as organizações extremistas não conseguiram medrar, nem levar avante as maquinações que preparavam…”. No próximo quadrinho, Jacques na direita, golpeia a foto do rosto de Agamenon Magalhães, também grudado no saco de pancada. Ao lado, no balão, “…Elementos suspeitos, mantidos sob rigorosa vigilância, foram seguidos em todos os seus movimentos…”. Outro balão sobre esse e os dois quadrinhos de baixo. “…não encontrando campo aberto, onde pudessem agir livremente, de modo que todos os planos e conspirações das correntes esquerdistas frustraram…”. Nos dois quadrinhos, Jacques esmurra o saco de pancada. No da esquerda, uma foto despedaçada cai. No da direita, a foto de Filinto Müller. Sobrepondo o meio dos dois quadrinhos, em vermelho, “Diretos de esquerda velozes como jabs.”

Página 16. Dez quadrinhos, as duas primeiras linhas com dois, sendo um mais longo e o da direita menor. Nas outras duas linhas, três quadrinhos em cada. No quadrinho do canto superior direito, mãos datilografam. Em um balão, “Portanto, Sr. Jacques…vamos sempre nos manter vigilantes com o desígnio de atuar na defesa das instituições, da boa ordem e da segurança coletiva!”. À esquerda, o rosto machucado de Jacques ocupa os dois quadrinhos longos, em cima e embaixo. O olho esquerdo dele está inchado e com hematomas. A boca está aberta. No balão, Jacques responde: “Comissário Barros, com todo respeito…não compreendo os motivos que provocaram a minha vinda para esta Delegacia. Ser comunista no Brasil não é mais um crime.” No quadrinho à direita, detalhe do papel na máquina e nele escrito, “profissão, lutador”. Numa linha acima, parte da palavra Salvador. Letras brancas de máquina antiga, sobrepõem os dois quadrinhos, “tac, tac, tac, tac”. Nos quadrinhos abaixo, o comissário segura o prontuário na frente do rosto e nos balões, “Motivo sempre há. Motivo se arranja, senhor Jacques.”  “Por ora, o senhor está liberado”. Ramos, curvado, com o cigarro na boca, segura a maçaneta e com a outra mão aponta para a porta aberta. A silhueta branca de Jacques de costas para sala e do lado de fora, o homem grosseiro o encara. Na última linha, no quadrinho da esquerda, Ramos entrega um papel para o comissário de quem se vê apenas o braço e parte das costas da cabeça. Nos balões, “Ramos, e a ficha?” “Tá OK, comissário!”. No próximo quadrinho, o comissário visto do ombro até a cintura. Ele está diante de um arquivo de madeira, com muitas gavetas. A mão direita coloca a ficha em uma gaveta enquanto a outra está no bolso da calça. Sobre ele, em branco transparente, textos do prontuário de Jacques. No último quadrinho, a mão esquerda empurra a gaveta do arquivo que tem a plaquinha, ARTISTAS.

Página 17. Cinco quadrinhos com o fundo marrom. Em três linhas, dois em cima, um longo, no centro e dois embaixo. No primeiro quadrinho, Jacques usa um paletó marrom. Está sentado, de pernas cruzadas, com o jornal aberto. Tem um braço apoiado numa mesinha e sobre ela, uma taça, uma garrafa e um cinzeiro. Jacques lê em voz alta: “Seguindo a evolução de todas as coisas, o artista moderno não poderá ser aquela…”. No quadrinho do lado, imagem do jornal, o texto a seguir e a foto do rosto de Aurora Aguiar sorridente. “…mesma criatura de longa cabeleira e pernicioso romantismo, que se distinguia em outras eras. O século atual se caracteriza pela vida esportiva, ideias sadias sobre preconceitos, independência de atitudes. Hoje, um pianista, um grande musicista, embora genial, pode perfeitamente jogar polo, assistir a lutas livres, apreciar o boxe.”

No quadrinho de baixo, à esquerda, Jacques de perfil lendo jornal. À direita, Aurora, sorridente, passa esponja de rouge no rosto. E entre eles, parte do texto do jornal, “Aprecio os esportes intensos, os que exigem grande energia, completa atividade, absoluta vida e emoção. Costumo assistir a lutas, jogos violentos e matches de boxe. Mas, quando a peleja chega ao seu auge, fixo minha atenção na assistência procurando ver, querendo compreender, os resultados daquelas emoções sobre os nervos e sensibilidades de outras criaturas.”

Na linha de baixo, Aurora vista do peito para cima, de cabeça baixa, com as mãos segurando a gola da camisa branca ainda desabotoada. Em três balões, “Muito bom saber que a madame aprecia o boxe!” “Mas você disse que lutas? És adepto do esporte dos romanos?”  No quadrinho ao lado, detalhe da boca de Jacques que diz: “Sim. Por irônica coincidência, sou nativo da Roma Negra.”

Página 18. Cinco quadrinhos. Dois em cima, um na vertical e dois ao lado direito. No primeiro, o rosto de Aurora sorridente voltado para à direita. Em dois balões, “Ah, um soteropolitano!!!” “E tua carreira nas lutas iniciou-se na Bahia?”. O quadrinho do lado está dividido na horizontal. No alto a boca e o bigode fino de Jacques. Abaixo o mar e ele de costa, submerso até o queixo, preso, com uma corrente, pelo calcanhar, a uma bola de ferro. Ao lado, em letras brancas, “Digamos que sim, mas os combates mais duros ocorreram no Rio de Janeiro. Depois, precisei veranear contra minha própria vontade em uma linda ilha maldita.” À esquerda, no quadrinho vertical, Aurora de pé, usa camisa branca, gravata vermelha, blazer e calça verde escuro. Segura o cigarro entre os dedos indicador e médio, com a mão virada para o lado. Ainda sentado, Jacques a olha encantado.  Nos dois quadrinhos à direita, os dois estão lado a lado. No de cima, ela dá o braço para Jacques. No quadrinho de baixo, Jacques de braço dado com ela, ambos de olhos semicerrados e satisfeitos.

Páginas 19 e 20 são contínuas. Linhas brancas em zig-zag e perpendiculares, delimitam as ações. No alto das duas páginas, uma banda de Jazz. Sete músicos de terno branco com gravata borboleta preta e uma mulher de vestido azul. Ao fundo, círculos laranja, amarelo, lilás e azul. Na página 19, no topo, em branco, “Festa da Mocidade | Parque Treze de Maio”. Um homem negro toca trompete, outro toca piano, e uma mulher, de cabelos curtos cacheados, olha em nossa direção.

Na página 20, no topo, em branco, uma clave de sol seguida, “Tenho uma coisa para lhe dizer”, de Capiba. Abaixo, escrito no bumbo da bateria, “Jazz Band Acadêmica” e ao redor os músicos tocam instrumentos de sopro. Uma linha na diagonal mais acima na página da esquerda. Abaixo, à esquerda, sob a noite azulada, tendo ao fundo uma roda gigante, Aurora e Jacques passeiam. No balão, “Aurora, é preciso ter para muito talento subir em um palco, não?”. Ela responde, “Sim, meu caro. É preciso se desnudar e ter domínio sobre a arte de representar.” À direita, em primeiro plano, rostos de uma mulher negra e um homem frente a frente. A linha em zig-zag na diagonal. Abaixo, Aurora e Jacques de costas, passam ao lado de uma tenda onde há a placa “AUTORIDADES”. Nos balões, “Mas, observe Jacques, nós, artistas atuamos em palcos, não em palanques.” Noutro balão, “Sim, Aurora. Mas, canastrões não faltam neste tipo de tablado”. À direita, rosto de um homem que os observa. Usa chapéu e tem cigarro na boca.  Abaixo de uma linha em zig-zag, o casal caminha para esquerda pela festa ao ar livre. Aurora expira fumaça que vira o balão, “Escuta! Que melodia linda.” Jacques diz, “Farsantes, que conseguiram manipular as massas apesar de suas atuações grotescas”. Abaixo, detalhe da mão do comissário, ao lado do corpo.  Um cigarro entre os dedos e o anel de ouro com a pedra vermelha

Na página 20, abaixo dos músicos, vistos de cima, em meio a pessoas que dançam, Jacques diz, “Querida, lamento dizer, mas estamos sendo seguidos por um pateta.” “Por você ser um comunista ou por eu ser uma artista?” Em branco, muitos “AH, AH, AH”.

Uma linha branca em zig-zag. No último quadrinho, Aurora o puxa pela mão entre as pessoas que dançam abraçadas. “Adoro mulheres espirituosas! Mas, é por estas e outras que não creio viver em uma verdadeira democracia, Aurora.” Ela responde, “Vamos aproveitar a noite Jacques, a boemia do Recife! Vamos nos perder e fazer nosso “amigo” trabalhar!”

As páginas 21 e 22 são contínuas. Em ambas as páginas, panorâmica de silhuetas de casarões na noite azulada. Através dos janelões, com luzes amarelas, vê-se ao longe, pessoas e o casal em diferentes situações. No alto, à esquerda o casal sorrir. Através de outra janela, um grupo de pessoas ao redor de uma mesa, na janela do lado, marinheiros, mulheres e Jacques em uma queda de braços com um dos marinheiros. No centro e no alto, através de um janelão, Aurora e Jacques, dançam abraçados. Através de outra janela à direita, mulheres em pé.  Em um frame, Aurora e Jacques correm, ela o puxa pela mão.

Abaixo, vários frames de Ramos, um dele entrando numa casa, outro dele saindo, outro dele andando enquanto fuma, mais um dele olhando através de uma janela. Sobre as imagens, em branco transparente, trechos e prontuários policiais, escritos a mão, outros datilografados, e aqui e acolá, digitais sobrepõem a paisagem noturna.